Categorias de ecosselos, critérios de padronização, tendências mundiais na aplicação de gestão ambiental em instrumentos sustentáveis e manejo florestal aliado à construção civil envolvem setores produtivos brasileiros
Por Victor Faverin
A conformidade ambiental atestada por organismos oficiais tornou-se imprescindível ao consumo consciente. Como efetiva ferramenta desta abordagem, os selos ambientais, embasados em critérios de ACV – Análise de Ciclo de Vida ou independentes, são cada vez mais adotados por empresas brasileiras e internacionais em busca de um símbolo com qualidade palpável e visível na embalagem.
Com isso, se orientar entre as gôndolas de supermercados e manter um senso crítico quanto aos impactos ambientais causados por produtos torna-se possível ao cliente comum, desde que bem orientado sobre os princípios utilizados em uma certificação. Portanto, é fundamental saber que a história da rotulagem ambiental remete à década de 1940, com a obrigatoriedade de identificar substâncias danosas à saúde humana e ao meio ambiente, como os pesticidas e raticidas.
Diante da iniciativa, em pouco tempo o selo seria transferido a todos os produtos que possuíssem substâncias tóxicas controladas em sua composição, com informações a respeito do manuseio e armazenagem. Ainda que figuras despadronizadas ilustrassem os potes desses artigos, logo a necessidade de identificar novos produtos seria considerada.
Em meados da década de 70, com a abusiva utilização de agrotóxicos em plantações como prevenção às pragas, idealizou-se os rótulos para alimentos orgânicos. De implantação voluntária, o próprio fabricante ou uma entidade ambientalista especializada informava a nulidade de substâncias perigosas na produção.
Devido à rápida aceitação do público, seguro por consumir alimentos naturais sem a presença de substâncias prejudiciais, e o crescimento do movimento ambientalista prenunciado por ecologistas, fabricantes de diversos produtos descobriram um segmento a explorar. Sentindo a segurança dos consumidores obtida por atestados de conformidade, empresários iniciaram o que hoje se conhece por selos verdes, ao especificarem nas embalagens de seus produtos os aspectos ambientais positivos a que eles atendiam.
Porém, os critérios utilizados não eram cientificamente comprovados ou informados aos consumidores e, com isso, a veracidade das informações não podia ser confirmada. A partir deste momento histórico, percebe-se a viabilidade da criação de normas e entidades reguladoras de selos ambientais.
Panorama mundial – A rotulagem ambiental cresceu com ações governamentais e privadas. A primeira e mais conhecida iniciativa de uniformização, em 1978, abordada pelo governo de todo um país na busca por um símbolo que atestasse a qualidade ambiental de um produto, foi o selo “Blue Angel”, da Alemanha.
Como um rótulo de terceira parte, a administração federal alemã estipulou algumas características ambientalmente corretas e as elencou como princípios dos produtos postulantes ao selo. No final da década de 80 observou-se um sólido incentivo à criação de etiquetas ecológicas, seguida pelos países nórdicos – Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Islândia –, com o selo “Nordic Swan”, de 1988; o Canadá, com o “Environmental Choice”, no mesmo ano; bem como o Japão, nomeando o “Eco-Mark”, em 1989, como seu representante.
No início dos anos 90, com alguns países pressionados com as idealizações anteriores, vieram o “Green Seal”, dos EUA; o “NF-Environnement”, da França; também o “Eco Mark”, da Índia e da Coréia; o “Green Label”, de Cingapura; bem como o “Environmental Choice”, da Nova Zelândia; o “European Ecolabelling”, da União Européia; e, por fim, o “AENOR”, da Espanha, como protagonistas da retomada dos selos ambientais.
Existentes até os dias de hoje, esses rótulos, embora com o mesmo objetivo, utilizam diferentes metodologias na abordagem de classificação de seus produtos. Para que esses variados critérios possam dialogar entre si e construir uma rede de relacionamento onde os países que usam a ecoetiqueta possam trocar experiências, o selo norte americano Green Seal propôs a criação de uma rede mundial de rotulagem ambiental.
Assim surgiu, a GEN – Global Ecolabelling Network, associação sem fins lucrativos, com sede no Canadá, criada em 1994, em busca de aprimorar e desenvolver a rotulagem ambiental em todo o mundo. A ideia é que, através da organização mundial, as diversas associações nacionais prestem assistência mútua. Com isso, a coordenação internacional da rede busca, ainda, promover o desenvolvimento gradual de programas de selos verdes nos países, especialmente naqueles que desejam introduzir um sistema de rotulagem ambiental.
Atualmente, mais de 20 países formam a rede global de ecorrotulagem, entre eles o Brasil, representado pelo selo de Qualidade Ambiental da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, representante da ISO no país. A etiqueta fornecida pela entidade destina-se a produtos de alguns dos setores que mais causam ressalvas às pessoas e é um importante instrumento para essa dissolução. Entre os artigos certificados, estão papel e celulose, couro e calçados, eletrodomésticos, aerossóis sem CFC – Clorofluorcarbono, baterias automotivas, detergentes biodegradáveis, lâmpadas, móveis de madeira, embalagens, cosméticos e produtos de higiene pessoal.
Classificação de selos ambientais
De acordo com Haroldo Mattos de Lemos, presidente do Instituto Brasil PNUMA – Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a ISO – Organização Internacional para Normalização, da qual ele é vice-presidente do Comitê Técnico 207, atenta à proliferação de selos ambientais com o persistente problema da falta de padrões regulatórios, estabeleceu inicialmente uma classificação de selos ambientais divididas em três partes:
- Tipo I: fornecido por uma instituição de terceira parte, como as governamentais que concedem o Blue Angel. Tem como base alguns critérios de ciclo de vida. É regulamentado pela NBR ISO 14024, que estabelece os princípios e procedimentos para o desenvolvimento de programas de rotulagem ambiental, incluindo a seleção de categorias de produtos, critérios ambientais e características funcionais dos produtos e critérios para avaliar e demonstrar sua conformidade. Segundo Lemos, a norma em questão estabelece, essencialmente, os procedimentos de certificação para concessão do rótulo ambiental.
- Tipo II: autodeclarações ambientais informativas, fixadas pelo próprio fabricante. É normalizado pela NBR ISO 14021, que permite às empresas divulgarem na mídia os benefícios ambientais que o produto alcança. Para isso, a norma descreve uma metodologia de avaliação e verificação geral para etiquetas ambientais próprias e métodos específicos de avaliação e verificação para as declarações selecionadas. “Há, porém, restrições para evitar o exagero”, afirma o presidente.
- Tipo III: exige a ACV como requisito ao selo ambiental. É, portanto, um programa voluntário que fornece dados a partir de critérios de terceira parte. “Esta etapa é a que assegura que seja abordado o maior número de questões na avaliação de um produto, com a dimensão exata dos impactos ambientais que ele provoca – do berço ao túmulo”, destaca Lemos. Devido à complexidade da implantação da ferramenta de análise, este tipo de selo é utilizado apenas entre empresas – business to business. Ele viabiliza a um importador solicitar o selo ao produtor internacional, sem que esta atitude seja considerada barreira alfandegária.
“É bom lembrar que a maioria dos selos tipo I que existem, ao contrário dos tipo III, aborda poucas questões ambientais e não cobre todo o ciclo de vida do produto”, alerta. Porém, a implementação do selo com critérios de ciclo de vida, devido à complexidade do estudo e por ainda não estar formatado pela ISO, demorará a ganhar mercado e atingir o consumidor diretamente, como as outras duas classificações.
Segundo a ABNT, a implementação de um selo ambiental em determinado produto obedece a um roteiro específico:
? demanda – classificação em categoria pertinente;
? pesquisa de critérios no GEN, caso exista faz-se a adequação, do contrário, é preciso desenvolvê-los;
? elaboração de procedimentos;
? e, finalmente, realiza-se a certificação.
Em razão dos esforços de associações globais e locais para a disseminação de ecorrótulos em produtos de diversos setores, o presidente do Brasil Pnuma acredita no crescimento da adoção desta ferramenta, inclusive para a comunicação dos fabricantes com os clientes. Contrário às críticas de que os selos verdes apenas treinam os consumidores a procurarem símbolos nos produtos, Lemos acredita que a credibilidade da instituição geradora do rótulo é quem responde a essa polêmica.
“Se uma instituição que é respeitada concede um selo verde a um produto, o consumidor não precisa se sentir obrigado a conhecer muitos detalhes sobre esse processo. Ele sabe que se aquela determinada instituição, que ele respeita e confia, coloca um símbolo em um produto, é sinal de que o produto atende a uma série de requisitos comprovados”, salienta.
Há de se considerar, também, os selos independentes, largamente utilizados no mercado nacional, como o da Abic – Associação Brasileira da Indústria de Café. Trata-se do Programa Permanente de Controle da Pureza de Café, um rótulo setorial ao qual a indústria cafeicultora se submeteu para comprovar que seu produto não contém misturas indevidas. A iniciativa surgiu em 1988, após a conclusão de uma pesquisa nacional que mostrou a desconfiança do consumidor brasileiro quanto à bebida produzida em solo nacional.
Atualmente, de acordo com a Abic, 500 empresas, com mais de 1000 marcas comercializadas, fazem parte do programa. Este é um dos selos mais conhecidos nacionalmente, por atestar um produto largamente consumido no Brasil. Assemelha-se a esta iniciativa, o Selo FSC, utilizado em um dos recursos mais abundantes no país: a madeira.
FSC – Forest Stewardship Council
Presente em mais de 75 países e representado em todos os continentes, é o selo verde mais reconhecido em todo o mundo. Em 2001, a implantação do FSC Brasil, nomeado como Conselho Brasileiro de Manejo Florestal, mostrou o resultado do avanço da certificação no Brasil envolvendo a produção madeireira.
Criado a partir de uma iniciativa para a conservação ambiental e desenvolvimento sustentável das florestas de todo o mundo, o selo busca difundir o uso racional da floresta e garantir, com isso, sua existência em longo prazo. Para isso, a organização desenvolve os princípios e critérios universais para certificação; credencia organizações certificadoras especializadas e independentes; e apoia o desenvolvimento de padrões nacionais e regionais de manejo florestal, adaptando-os à realidade de um determinado tipo de floresta.
No Brasil, existem atualmente cinco certificadoras aptas a conceder o selo: BVC – Bureau Veritas Certification; IMO – Instituto de Mercado Ecológico; Imaflora – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola; SCS – Scientific Certification Systems; e Control Union Certifications. Estas entidades submetem-se às regras estabelecidas pelo rótulo ambiental e são continuamente monitoradas.
Contudo, o FSC realiza dois tipos de certificação: a de manejo florestal propriamente dita, onde todos os produtores podem obter o certificado, sejam pequenas ou grandes operações ou associações comunitárias. Desta forma, as florestas podem ser naturais ou plantadas, públicas ou privadas e a certificação é caracterizada por tipo de produto: madeireiro, como toras ou pranchas; ou não, tal como o óleo, sementes e castanhas.
E a certificação da cadeia de custódia, que se aplica aos produtores que processam a matéria-prima. Os alvos desta categoria são, entre outros, as serrarias, os fabricantes e os designers que desejam utilizar o selo FSC no seu produto. Assim, a certificação é voltada para garantir a rastreabilidade, que integra a cadeia produtiva até o produto final.
Para Estevão Braga, engenheiro florestal do WWF Brasil, o FSC garante que a floresta avaliada está em conformidade com as leis florestais, além de obedecer a critérios sociais, como a abolição de trabalho escravo. É importante, porém, esclarecer a diferença entre duas terminologias usadas no setor. “Madeira legal é conhecida como o produto que cumpre aspectos de legalidade, ou seja, quanto à produção e transporte, por exemplo. A madeira certificada vai além deste conceito e garante que ela provém de um manejo controlado e sustentável”, enfatiza o engenheiro.
O selo agrega valor ao produto. Porém, Braga acredita que a madeira certificada, em média 8,5% mais cara do que a sem histórico de proveniência, atrai o consumidor, consciente de que a devastação de florestas é uma prática inadmissível. A exigência do selo é traduzida em números alarmantes, ao se constatar que o Brasil perde, pelo menos, um milhão de hectares de floresta todos os anos.
O FSC estabelece dez princípios à certificação florestal:
? Obediência às leis e aos princípios do FSC;
? Responsabilidades e direitos de posse e uso da terra;
? Direitos dos povos indígenas;
? Relações comunitárias e direitos dos trabalhadores;
? Benefícios das florestas;
? Impacto ambiental;
? Plano de manejo;
? Monitoramento e avaliação;
? Manutenção de florestas de alto valor de conservação;
? Plantações planejadas de acordo com os nove critérios anteriores.
De acordo com Braga, 70% da madeira comercializada no Brasil é para uso na construção civil: 42% destinada a casas, principalmente à estrutura do telhado; e 28% para formas de concreto e andaimes.
LEED – Leadership in Energy and Environmental Design
A conformidade ambiental na engenharia segue diversos parâmetros e é, como em outros selos, um bem tangível às construtoras que incutem conceitos sustentáveis no canteiro de obras. O prédio “verde” é uma realidade em diversos países, inclusive no Brasil, com oito edificações certificadas em consonância com os critérios estabelecidos pelo U.S Green Building Council e adaptados à realidade do mercado nacional com o Green Building Council Brasil.
“Para termos a organização brasileira, precisávamos, apenas, de uma estrutura consolidada para divulgar o conceito LEED, porque muitas das normas utilizadas nos EUA são, também, usadas no Brasil”, conta Nelson Kawakami, diretor comercial do GBC Brasil. Foram somados, ainda, alguns critérios avaliativos à conquista do selo nacional que não estão inclusos na matriz norte-americana.
“Adicionamos a acessibilidade a portadores de deficiências físicas, incentivo ao aquecedor solar, medição individualizada de água e luz – que gera uma economia de 20% a 25% nas contas – e a cota de no máximo 10% no desperdício dos materiais na edificação. Sem esses critérios, o prédio não obtém o selo aqui no Brasil”, afirma.
Segundo Kawakami, as construtoras nacionais se interessam cada vez mais pelo selo ambiental. Prova disso é que até junho deste ano, 139 edifícios requereram a certificação. Para tanto, o LEED estabelece oito normas obrigatórias. São elas:
? Prevenção da poluição na atividade da construção;
? Redução no uso da água;
? Comissionamento dos sistemas de energia;
? Performance mínima de energia;
? Gestão fundamental de gases refrigerantes;
? Depósito e coleta de materiais recicláveis;
? Desempenho mínimo da qualidade do ar interno;
? Controle da fumaça do cigarro.
Há mais 69 critérios recomendáveis aos prédios que buscam a certificação. Esses quesitos somam, ao todo, 110 pontos. A partir de 40, obtém-se a certificação. Para identificar prédios com mais características sustentáveis que outros, o LEED criou escalas de conformidade, que são prescritas da seguinte maneira:
- Edificação Certificada: 40 a 49 pontos;
- Categorias Prata: 50 a 59 pontos;
- Ouro: 60 a 79 pontos;
- Platinum: 80 pontos ou mais.
Prédios certificados custam, em média, entre 5% e 10% mais que os convencionais. Porém, conforme o diretor comercial do GBC Brasil, agregam valor à construção e o retorno do dinheiro investido é resgatado no período de dois a três anos, com a economia de água e energia elétrica.
Como já dito, o Brasil possui oito edifícios certificados em conformidade com o LEED:
? Agência Granja Viana Banco Real, em Cotia, São Paulo – Prata;
? Laboratório Delboni Auriemo, São Paulo – Prata;
? Edifício Cidade Nova, Rio de Janeiro – Certificado;
? Eldorado Business Tower, São Paulo – Platinum;
? Morgan Stanley Bank, São Paulo – Platinum;
? Rochavera Corporate Towers Torre B, São Paulo – Ouro;
? Ventura Corporate Towers Torre Leste, Rio de Janeiro – Ouro;
? WT Nações Unidas 1 e 2, São Paulo – Prata.
Para Kawakami, a adaptabilidade ao selo influência no design do produto final, mas não obstrui a criatividade quanto ao desenho do prédio. Pelo contrário, fornece mais uma tendência a ser explorada.
Avaliação do ciclo de vida em selos ambientais
Para Gil Anderi, presidente da Associação Brasileira de Ciclo de Vida, um selo verde que adota critérios de ACV, desde que divulgue os princípios com seriedade, se contextualiza como a melhor maneira de orientar o consumidor a comprar um produto ecologicamente correto.
Segundo ele, é crucial lembrar que a ferramenta de gestão apenas pode ser aplicada entre dois produtos que exerçam a mesma função. “Apenas uma análise de ciclo de vida pode verificar o nível de impacto ambiental entre um secador de mãos automático e o papel, um copo de vidro e um de plástico ou um barbeador elétrico com um descartável”, esclarece.
Atualmente, a ferramenta está em ascensão devido ao grande número de interessados em conhecer os critérios aplicáveis à análise. Tal crescimento deve-se à publicação da ISO 14025, que regulamenta selos tipo III e exige, como um dos requisitos, o estudo de ACV. “Globalmente, a demanda é importante, porque se pode exigir o cumprimento da norma internacional sem que a ação seja tratada como barreira tarifária, ao passo que antes, se fosse exigido o estudo de ACV, a OMC – Organização Mundial do Comércio proibiria”, informa Anderi.
A procura por esclarecimentos a cerca do método cresce, também, no mercado nacional. Conforme Anderi, as empresas consultam a Associação em busca de suporte para estruturar departamentos especializados na prática, direito legitimado pela ISO 14040 – norma que aborda conceitos aplicativos à ferramenta. Entretanto, a ABCV preocupa-se com o surgimento de profissionais sem capacitação que gerem resultados questionáveis. “A avaliação da qualidade de um estudo é muito difícil de ser feita, porque contém incertezas metodológicas e a norma pede transparência no relatório. Se feita de maneira errada, a ferramenta corre o risco de cair em descrédito”, destaca.
Portanto, até o final do mês de outubro, a associação pretende lançar uma proposta para a comunidade de mecanismo de acreditação de consultores. “Com ela, a associação dirá à comunidade que o trabalho de determinado consultor é sério, tem credibilidade. Mas não pretendemos tornar obrigatório”, conta.
Fases da avaliação – A execução de uma análise divide-se em quatro categorias distintas, atestadas pela família ISO 14040 e seguintes tópicos. Primeiramente, é necessário definir o objetivo e escopo do estudo que, embora pareça simples, envolve detalhes criteriosos que são fundamentais ao sucesso da abordagem analítica. “Nesta etapa, tem-se o nível de profundidade que se quer atingir. Definimos quais as categorias de impacto. Hoje em dia, a tendência é estudar mudanças climáticas e, para isso, se faz a ACV considerando apenas os aspectos ambientais associados às mudanças climáticas, às emissões de gases de efeito estufa”, explica Anderi.
Comumente, esta definição é chamada de pegada de carbono. O que, para o presidente da associação, é o mesmo que fazer um balanço de entradas e saídas do ciclo de vida de um produto, considerando exclusivamente a emissão de gases poluentes.
Nesta primeira etapa ainda deve-se definir a Unidade Funcional do estudo. Um exemplo que simplifica este processo é um possível estudo para descobrir qual o desempenho ambiental da função acender cigarros com dois produtos: fósforo ou isqueiro. Para obter uma base de comparação, não se pode comparar um palito de fósforo com um isqueiro. Portanto, estabelece-se um número estimado: doze mil cigarros. O fator comum é a unidade funcional, que se aplica aos dois produtos. A partir dela sabe-se quantos fósforos são necessários para acender o determinado número de quantidade estabelecida previamente: doze mil fósforos. Após isso, executam-se todos os cálculos, como os quilos emitidos de CO2 – gás carbônico e de SO2 – dióxido de enxofre por doze mil fósforos. O mesmo aplica-se ao isqueiro – que, regulamentado pelo Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial, pode ser acionado até três mil vezes. Ou seja, são necessárias quatro unidades para acender os doze mil cigarros.
A segunda fase envolve o inventário do ciclo de vida, onde se coletam dados e estabelecem-se procedimentos de cálculo para que seja possível facilitar o agrupamento de números em categorias ambientais utilizáveis e comparáveis, como se fosse um balanço contábil. “É nessa parte que se estabelece que tudo o que é considerado como entrada de material no estudo também deve ser considerado como saída, seja a massa, extração de recursos ou a destinação final”, conta.
Posteriormente, depara-se o estudo com a avaliação do impacto do ciclo de vida, onde identificam-se os termos que podem ser associados aos dados levantados no inventário. Algumas avaliações mais simples podem ser realizadas apenas com os dados obtidos na fase anterior. Entretanto, quando detectadas grandes diferenças nos vários parâmetros de impacto ou houver necessidade de se relacionar os dados do inventário aos problemas ambientais, uma metodologia específica pode ser utilizada.
Por fim, a interpretação do estudo, baseada no relatório final – que deve ser elaborado de forma a possibilitar a utilização dos resultados de acordo com os objetivos estabelecidos para o estudo – é a fase mais sensível do estudo. A subjetividade, intrínseca durante todo o estudo, pode afetar o resultado. Para isso, existem técnicas com as quais se procura minimizar o caráter pessoal embutido na conclusão. “Uma das mais conhecidas e com registro na literatura se chama ‘painel de especialistas’, onde são reunidas pessoas da própria empresa, de agência ambiental e de ONG – Organização Não-Governamental, e cada parte faz a sua ponderação”, conta Anderi.
Criação da técnica – Embora não concretizada em um selo certificador, a primeira experiência que se assemelha à ferramenta de análise do ciclo de vida em um produto foi encomendada pela Coca-Cola em 1965, preocupada com o consumo de energia, recursos naturais e emissões geradas pelas embalagens do refrigerante. Com isso, a marca contratou o MRI – Midwest Research Institute para realizar um estudo comparativo entre o vidro, plástico e alumínio, com o objetivo de descobrir o mais adequado do ponto de vista ambiental e com melhor desempenho quanto à preservação de recursos naturais. Este processo ficou conhecido como REPA – Resource and Environmental Profile Analysis e a metodologia seria, em seguida, largamente utilizada por consultores, que agregariam outros critérios e, posteriormente, aperfeiçoariam a técnica.
Selo social
Criado a partir da idéia da médica Maria Emilia Gadelha Serra, que ficou dois anos no Japão e voltou ao Brasil impressionada com o avanço da reciclagem no país oriental, o Instituto Recicle Milhões de Vidas nasceu em 2000, com o objetivo de cuidar de crianças com câncer e promover a reciclagem na região da Vila Mariana, local do seu consultório em São Paulo, SP.
Atendendo, ainda, aos dois públicos, a ONG reduziu o nome e hoje, como Instituto Recicle, foca na educação ambiental como agente de mudança à construção de uma sociedade pautada em conceitos sustentáveis e estende suas ações em âmbito nacional. Portanto, a valorização da inclusão social, elemento intrínseco às iniciativas do Instituto, materializa-se, agora, no Selo Recicle – Uma Atitude Sustentável. O rótulo ambiental não-certificável, ainda não lançado oficialmente, visa a reconhecer instituições que promovam iniciativas similares à ONG, gerando, assim, uma rede de conceituação de boas práticas.
O instrumento de comunicação visual objetiva, em suma, evidenciar aos consumidores as empresas e instituições que desempenham em sua agenda corporativa maneiras de exploração do meio ambiente que permitam a renovação de recursos e a melhoria na qualidade de vida. Para obter o selo, é necessária a vigência de um Termo de Compromisso assinado pela empresa garantindo a manutenção das iniciativas socioambientais, como, por exemplo, oficinas de educação ambiental, coleta seletiva e palestras.
De acordo com Dinah Monteiro Lessa, diretora executiva do Instituto Recicle, as organizações que desejarem obter o rótulo precisam ter ao menos um ano de funcionamento, assumir programas ambientais e disseminá-los entre colaboradores, fornecedores, clientes e comunidade local, bem como contribuir mensalmente para a manutenção da ONG com valor estabelecido em função do faturamento bruto anual da empresa, no exercício anterior.
“A empresa credenciada com o Selo Recicle terá o direito de uso por um ano e terá seu nome e logomarca divulgados nos materiais e site do Instituto”, ressalta Dinah. O resultado financeiro, além de contemplar o meio ambiente, gerará renda aplicável em novos projetos e revertidos para entidades que o Instituto beneficia desde sua criação, como a Adeva – Associação de Deficientes Visuais e Amigos, APAE-SP – Associação de Pais e Amigos de Excepcionais e o GRAACC – Grupo
de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer.
Olhos:
Atualmente, mais de 20 países formam a rede global de ecorrotulagem, entre eles o Brasil, representado pelo selo de Qualidade Ambiental da ABNT, que certifica produtos como papel e celulose, couro e calçados, eletrodomésticos, baterias automotivas, móveis de madeira e produtos de higiene pessoal
O GBC Brasil adicionou alguns critérios ao selo LEED condizentes com a realidade brasileira, tais como a acessibilidade a portadores de deficiências físicas, incentivo ao aquecedor solar, medição individualizada de água e luz e a cota de no máximo 10% no desperdício dos materiais na edificação
A rotulagem ambiental tipo III exige a ACV como requisito à implementação do selo e formula-se como uma abrangente medida para abrigar o máximo de questões ambientais possíveis na eco-etiqueta de um produto